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domingo, 2 de junho de 2013

Nobel de Medicina vincula tamanho de trechos de DNA à prevenção de doenças



DENISE GRADY
DO "NEW YORK TIMES"

The New York Times






Elizabeth H. Blackburn se considera cética. Mas admite que às vezes se impacienta com as dúvidas levantadas por alguns cientistas em relação aos seus empreendimentos.
O que está em discussão é um exame laboratorial que mede os telômeros, trechos de DNA nas extremidades dos cromossomos que impedem o envelhecimento precoce das células.
Telômeros anormalmente curtos podem assinalar uma predisposição a doenças.
Blackburn, Nobel de Medicina em 2009 por seu trabalho sobre telômeros, acha que a medição dos telômeros traz a oportunidade de intervenção precoce ou até mesmo de prevenção de doenças. Uma empresa que ela cofundou prevê oferecer os exames de medição de telômeros ainda neste ano.
Thor Swift/The New York Times
Elizabeth H. Blackburn, ganhadora do Nobel de Medicina
Elizabeth H. Blackburn, ganhadora do Nobel de Medicina
Mas outros cientistas questionaram a utilidade da medição, que não diagnostica doenças específicas. Apesar disso, Blackburn, 64, professora de biologia e fisiologia na Universidade da Califórnia em San Francisco, diz estar convencida.
Uma década de dados obtidos por sua equipe e outros pesquisadores indica um vínculo entre telômeros curtos e doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e outros males, incluindo estresse crônico e transtorno de estresse pós-traumático. Blackburn também pesquisou as ligações entre estresse emocional, saúde e telômeros curtos.
Os telômeros frequentemente são comparados às pontas de plástico dos cordões de sapatos, que não deixam os cordões se esfiaparem. Há muito tempo, cientistas já imaginavam que os telômeros protegessem as extremidades dos cromossomos, mas ninguém sabia como.
Cada vez que uma célula se divide, seus telômeros se encurtam. Se eles ficam curtos demais, a célula não pode mais se dividir. Mas, nas células saudáveis, os telômeros são reconstruídos.
Na Universidade Yale, no final dos anos 1970, Blackburn descobriu que os telômeros são feitos de seis unidades de DNA repetidas muitas vezes. Ela e um pesquisador da Universidade Harvard, Jack W. Szostak, determinaram que uma enzima deve restaurar os telômeros. Em 1978, Blackburn foi para a Universidade da Califórnia em Berkeley, e, em 1984, Carol W. Greider, estudante de pós-graduação em seu laboratório, identificou a enzima: a telomerase.
Blackburn, Szostak e Greider dividiram o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2009.
Dez anos atrás, Blackburn iniciou uma colaboração com Elissa Epel, psicóloga da Universidade da Califórnia em San Francisco que estuda o estresse crônico. Um dos projetos delas envolveu mães que eram as cuidadoras principais de filhos com doenças crônicas.
"Com as mães, o tema realmente me tocou", disse Blackburn. "Senti muito poressas mulheres. "
Comparadas às mães de filhos saudáveis, as mães de filhos doentes apresentavam telômeros mais curtos e menos telomerase. Quanto mais tempo elas vinham cuidando de seus filhos, mais curtos eram seus telômeros. O mesmo fenômeno foi constatado com pessoas que cuidavam de cônjuges com demência. Outros estudos sugeriram que acontecimentos traumáticos da infância podem ter efeitos que persistem por décadas sobre os telômeros e a saúde.
Pessoas começaram a indagar se seus telômeros poderiam ser medidos. Blackburn achou que seria razoável oferecer ao público um exame de medição de telômeros, e, em maio de 2010, cofundou uma empresa, a Telome Health.
O plano consiste em começar a oferecer neste ano os exames de telômeros, que terão que ser receitados por um médico. De acordo com o presidente e executivo-chefe científico da empresa, Calvin Harley, o preço será competitivo. Outras companhias que fornecem exames semelhantes cobram entre US$ 300 e US$ 700.
O exame não diagnostica doenças específicas. Harley o compara a uma "luz de aviso" de um carro --o indicativo de um problema possível que necessitará de mais exames. "Não é uma bola de cristal que dirá quantos anos de vida nos restam", comentou Blackburn.
Segundo ela, existem maneiras de proteger os telômeros e possivelmente de alongar os telômeros curtos. Exercícios físicos, uma dieta nutritiva, perder peso em excesso e reduzir o estresse emocional podem ajudar.
Alguns pesquisadores são céticos, argumentando que as ligações entre telômeros curtos e doenças não constituem prova de causa e efeito. Entre os que questionam o exame está Carol Greider, que dividiu o Nobel com Blackburn.
Mas a esperança de Blackburn é que a medição de telômeros faça parte de uma nova direção na medicina, voltada a interceptar doenças. Telômeros anormalmente curtos podem indicar um problema de saúde, segundo ela. "Se você estiver entre o percentual mais baixo para a sua faixa etária, pode se interessar em saber a razão disso."

sábado, 1 de dezembro de 2012

Telômeros podem realmente prever sua longevidade?



O lançamento feito pela companhia Life Length em Madrid de um kit que permitiria prever qual é a sua expectativa de vida a partir do tamanho dos seus telômeros causou um frenesi internacional. Uma enquete no site de VEJA indica que 68% dos leitores fariam o teste para saber quanto tempo têm ainda para viver. Fiquei surpresa porque certamente eu não me submeteria a esse teste. Prefiro não saber quanto tempo tenho ainda para viver. Mas será que no futuro o tamanho dos telômeros será usado para avaliar a nossa saúde? Qual é realmente o valor preditivo dos telômeros na estimativa da nossa expectativa de vida? Para responder a essas perguntas a revista Nature entrevistou a maior expert no assunto: a doutora Elizabeth Blackburn, que ganhou o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 2009, justamente por suas pesquisas em telômeros.  Ela também é consultora de uma companhia – Telome Health -  que estuda os telômeros e seus impactos na nossa saúde. A resposta de Maria A. Blasco e outros pesquisadores que estão na Life Length foi imediata. As duas estão em companhias concorrentes.
O que são os telômeros
Já falei a respeito em uma coluna anterior quando entrevistei o doutor Rodrigo Calado, que é um expert no assunto, logo após o anúncio do prêmio Nobel a doutora Elizabeth Blackburn.
Na ocasião, ele explicou em uma linguagem simples que os telômeros são as pontas dos nossos cromossomos, como verdadeiros protetores contra danos externos. Eles funcionam mais ou menos como aquele plástico nas pontas de um cadarço de sapato, que não deixam que o cadarço se desfie, estrague e perca a sua função. Entretanto, da mesma forma como aquele plástico acaba se estragando com o passar do tempo e você não consegue mais passar o cadarço pelos buracos do sapato ou do tênis, o telômero também se desgasta e se encurta com as divisões da célula, impedindo que ela continue a se dividir. As células-tronco, para evitar esse desgaste, contêm uma enzima especial chamada telomerase, que repara os telômeros e preserva o seu comprimento, permitindo assim que essas células tão importantes continuem a se multiplicar e manter, por exemplo, as células do sangue constantemente durante toda a nossa vida, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.
Mas vamos lá, o que pensa a cientista Elizabeth Blackburn sobre o anúncio dos kits da Life Length para medir telômeros ? Vou reproduzir  em parte a sua entrevista à revista Nature.
Nature: O telômero pode realmente predizer quanto tempo você vai viver?
Elizabeth Blackburn: Isso é uma bobagem, não? Há realmente uma conexão com a mortalidade, mas é bobagem dizer que o telômero vá prever a sua longevidade. Isso tem que ser considerado com outras informações.
Nature: Então o que ele pode dizer-lhe?
Elizabeth Blackburn: Nós e outros grupos estamos observando uma associação entre o encurtamento dos telômeros e o risco para várias doenças comuns complexas tais como doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. Estudamos também alterações psicológicas crônicas tais como depressão e “stress” pós-traumático e cada vez mais estamos observando uma associação com o encurtamento dos telômeros.  Um resultado muito interessante  foi observado com alterações no tamanho dos telômeros com o tempo. Pessoas que tinham uma diminuição dos telômeros num período de 2.5 anos tinham uma probabilidade 3 vezes maior de morrer de problema cardíaco durante os próximos 9 anos do que as pessoas que mantinham os telômeros  com o mesmo tamanho.
Nature: Por que os testes medem os telômeros em glóbulos brancos?
Elizabeth Blackburn: Por que são células fáceis de se obter.  O tamanho do telômero varia em diferentes tecidos mas geralmente seu tamanho é comparável em diferentes tecidos.
Nature: Poderíamos desenvolver drogas para proteger ou aumentar o tamanho dos telômeros?
Elizabeth Blackburn: Nosso grupo não está interessado em drogas nesse momento apesar que tenho certeza que há gente interessada nisso. Todo mundo quer uma pílula mágica, mas há um longo caminho antes de se descobrir qualquer tipo de pílula. Não é uma ideia estúpida, mas precisamos ser realistas em relação a quanto tempo isso levará.
Nature: Quais são as próximas perguntas na pesquisa?
Elizabeth Blackburn: Se os telômeros têm um valor estatístico preditivo interessante, as perguntas são: Como explicar isso do ponto de vista biológico? Como abordar os diferentes efeitos – quais são genéticos e quais são não-genéticos? Quais são causais e quais são relacionados? Os desafios na medicina estão mudando de “tratar os sintomas depois que a casa pegou fogo” para  “como preservar a casa”? Podemos aplicar o que aprendemos sobre processos de doenças para prevenção ou intervenção precoce?
Nature: Como testes de telômeros podem ser úteis em medicina?
Elizabeth Blackburn: Eles mostram  uma associação estatística com o risco para doenças comuns como cardiopatias e diabetes. As intervenções médicas poderiam incluir medidas para ajudar as pessoas a lidar com o stress e encorajar a prática de exercícios pois novos estudos estão mostrando que eles estão associados a uma manutenção no tamanho dos telômeros. Se você fizer exercício, talvez isso possa servir como um biomarcador para  avaliar o efeito do exercício.

Meus comentários:
O importante é que as duas cientistas concordam que o tamanho dos telômeros é uma estimativa estatística e não é determinístico. Ainda bem. Se fosse, imagino que logo as companhias de seguro saúde e seguro de vida  iriam pedir – entre outros exames -  a medida dos seus telômeros. E os preços  seriam calculados de acordo com seu tamanho. Algo assim: “Meu senhor, os seus telômeros estão muito curtos. Não precisa fazer um seguro saúde a longo prazo por que o senhor  não vai viver muito. Em compensação, se o senhor quiser fazer um seguro da vida…  Já imaginaram?
A boa notícia  é que a prática de exercícios está mostrando cada vez mais que consegue prevenir o encurtamento dos telômeros. Questiono, porém, se é uma boa ideia medi-los para avaliar se o exercício está realmente tendo esse efeito, usar esse parâmetro como um biomarcador como sugere a doutora Blackburn. É claro que se fosse observado que seus telômeros não diminuíram de tamanho seria uma motivação a mais. Por outro lado, se apesar da prática de exercícios seus telômeros continuarem a encurtar isso poderá ser um desestímulo e até desencorajá-lo a continuar a praticá-los.