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domingo, 18 de agosto de 2013

A carne feita em laboratório

O primeiro hambúrguer feito a partir de células-tronco de vaca projeta um futuro em que a carne será produzida em pequenas fazendas urbanas

FELIPE PONTES, DE LONDRES

CARNE SINTÉTICA Uma amostra do hambúrguer do futuro. Aflições morais e ambientais estimulam seu desenvolvimento, num mundo em que a carne natural ficará mais cara (Foto: Dulla/ÉPOCA e Felipe Monteiro e Jairo Billafranca para Studio Bee Produções)
O hambúrguer de laboratório parece mais natural que os servidos em cadeias de sanduíches fast-food. Ele não leva conservantes, tem a cor forte de carne vermelha e, ao ser tostado, fica com a textura levemente irregular de um hambúrguer caseiro. Na comparação, seu congênere do McDonald’s parece pálido. Na última terça-feira, num encontro com o cientista holandês Mark Post, o criador do hambúrguer de laboratório, pude vê-lo de perto e segurá-lo por 30 segundos. Pedi para prová-lo. Post disse que a amostra que ele carregava numa caixa de isopor (uma das três preparadas por ele) não seria boa para degustação, porque estava fria e fora preparada três dias antes. Uma outra amostra – cada uma custou R$ 750 mil – foi comida por Post e por sua equipe há cerca de três meses. Uma terceira, de 140 gramas, fora grelhada na véspera pelo chef britânico Richard McGeown diante de uma plateia de cientistas e jornalistas. Ela foi dividida em dois pedaços. Metade foi guardada para os filhos de Post (uma garota de 14 anos e um garoto de 13) e para a equipe de produção do evento. A outra foi degustada por Post e por dois provadores independentes: o escritor americano Josh Schonwald, autor do livro The taste of tomorrow (O sabor do amanhã), e a cientista austríaca Hanni Rützler, especializada em nutrição.

Hanni disse que o hambúrguer tinha o gosto “intenso”, mas podia ser mais “suculento”, apesar da “consistência impressionante”. Schonwald disse que “a sensação da mordida é a mesma de um hambúrguer comum”. “Antes de testá-lo, imaginava que a textura seria estranha, mas ela é familiar como a de um hambúrguer normal. Imaginava também que o gosto seria repulsivo, mas ele me pareceu neutro”, afirmou a ÉPOCA. O que faltou? Segundo Schonwald, “gordura”. “A carne me pareceu extremamente magra. Isso seduz pessoas em busca de proteínas sem gordura”, disse. “Mas, para carnívoros como eu, a gordura teria dado ao hambúrguer de laboratório mais sabor.”
Post reconhece esse problema. Ele trabalha para produzir pedaços de carne com vasos sanguíneos, para incrementar o sabor de seu hambúrguer. “As melhorias levarão dez anos, até que ele possa ser vendido”, afirmou. Carnes com corte para churrasco, como picanha ou alcatra, certamente levarão mais tempo. Post prevê que “chegará uma hora em que poderemos criar o que quisermos, até carne de pinguim”.

Professor de fisiologia na Universidade de Maastricht, na Holanda, Post levou cinco anos para criar o hambúrguer de laboratório, desenvolvido a partir de células-tronco retiradas da região do pescoço da vaca (leia o quadro na página 72). Desde maio de 2010, a pesquisa contou com o apoio financeiro de Sergey Brin, o bilionário fundador do Google. Nos últimos anos, Brin fundou também a empresa de testes genéticos 23andMe, estudou a viabilidade de fazer mineração em asteroides, investiu na empresa de voo espacial privado Space Adventures e desenvolve, por meio do Google, carros que dirigem sozinhos. Num vídeo, Brin disse que apoiou a pesquisa, principalmente por uma preocupação com o bem-estar animal. “As pessoas têm uma imagem errada sobre a produção moderna de carne, ao imaginar fazendas impecáveis com poucos animais”, disse. “Não me sinto confortável em ver como essas vacas são realmente criadas.”
Aflições morais com o sofrimento de animais e ecológicas, por causa do impacto da produção de carne no meio ambiente, são dois dos principais estímulos para o desenvolvimento da carne de laboratório. De acordo com um relatório de 2013 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, em inglês), a demanda por carne, impulsionada pela ascensão de uma classe média em países emergentes como China e Brasil, deverá dobrar até 2050. Ao mesmo tempo, a criação de animais para alimentação humana já é responsável pela emissão de 18% dos gases poluentes no mundo, consome 27% da água que usamos e ocupa 33% das terras aráveis do planeta. Um aumento nesses números poderá, portanto, ter consequências drásticas para o planeta. Uma opção é estimular o consumo de fontes alternativas de proteína como os insetos (leia mais na página 74). Mas a carne ainda é o produto proteico mais desejado do mundo. Imagine um pai de família chinês que nunca pôde, mas agora tem meios de colocar carne no prato dele e do filho.
>> A dieta do trigo

Na semana passada, a Peta (Pessoas para o tratamento ético dos animais, na tradução do inglês), uma das maiores organizações em defesa dos animais no mundo, divulgou um comunicado em apoio às pesquisas de Post. “A carne de laboratório pode aliviar todos os problemas éticos com o sofrimento de animais e a poluição do planeta”, diz a filósofa Cornelia van der Weele, da Universidade Wageningen, na Holanda. Para ela, a carne de laboratório apresenta também pelo menos uma vantagem em relação aos alimentos geneticamente modificados. “Como uma carne in vitro causa estranheza por si só, os cientistas usam nela células normais, que não são manipuladas”, diz. Hanna Tuomisto, pesquisadora do Instituto para o Ambiente e Sustentabilidade, na Itália, aponta outros benefícios. “Ao ser produzida em condições controladas, a carne de laboratório pode evitar o avanço de doenças animais”, afirma. Num ambiente asséptico de um laboratório, a carne tem menos chance de ser infectada com bactérias comuns em fazendas. E o produto em si não teria antibióticos, usados abundantemente na criação dos animais.

Segundo os cálculos de Post, uma célula-tronco de vaca poderá gerar, no futuro, 20.000 toneladas de carne, volume suficiente para produzir 175 milhões de hambúrgueres – quantidade que exige hoje, pelos métodos naturais, o abate de mais de 440 mil vacas. Evidentemente, dada a incipiência de muitos aspectos de uma tecnologia recém-desenvolvida, tal cenário ainda parece ficção. O que pode torná-lo uma realidade nem tão remota é uma questão econômica. É certo que a carne que conhecemos e consumimos ficará mais cara no Brasil e no mundo. Em países como Grã-Bretanha e Estados Unidos, a carne de qualidade já é considerada um produto para os mais abastados. Cedo ou tarde, isso acontecerá também no Brasil, invertendo a queda de preços das últimas décadas. Segundo o estudo Pecuária brasileira: produtividade e efeito poupa-terra, publicado em 2011 pela Embrapa, a carne valia, em junho de 2010, em São Paulo, 30% do valor que tinha em 1973. “O valor relativo da carne caiu em relação à renda do trabalhador, mas a tendência é que ela fique cada vez mais cara, porque a demanda será maior que a oferta”, diz Fernando Sampaio, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne. “Principalmente a bovina, cuja produção é mais demorada.”

O sonho de Post é conseguir igualar algum dia os preços de seu hambúrguer e do natural, num mundo em que pequenas fazendas urbanas transformarão a produção artificial de carne em algo caseiro e ecológico. “No futuro, talvez comeremos a carne de laboratório no dia a dia e guardaremos a carne de verdade para ocasiões especiais, como festas e feriados”, diz a filósofa Cornelia van der Weele. Um cenário semelhante é contemplado no primeiro capítulo do livro de Schonwald, o escritor americano que provou o hambúrguer de laboratório. Nele, Schonwald imagina um cliente em 2035, encomendando a carne do animal que quiser no restaurante com o melhor “biorreator” da cidade. Hoje, isso ainda pode parecer futurismo barato. Mas essa é uma acusação que poderia ter sido feita também a Winston Churchill em 1931, quando ele publicou um artigo na revista britânica The Strand. O artigo dizia que, “em 50 anos, nós escaparemos do absurdo de criar uma galinha inteira para comer seu peito ou asa, porque cultivaremos essas partes separadamente”. Mais de 80 anos depois, a previsão de Churchill, num presente em que os primeiros hambúrgueres de laboratório começam a ser produzidos, já não soa absurda. 
 
Um hambúrguer cultivado (Foto: Otávio Burin e Pedro Schimidt)

sábado, 11 de maio de 2013

Carne vermelha aumenta risco de doenças cardíacas, diz pesquisa



Cientistas americanos descobriram que, junto à gordura e o colesterol, o metabolismo do intestino humano também faz carne elevar o risco de doenças cardiovasculares


Além da gordura e do colesterol, cientistas descobriram mais uma razão por que o consumo de carne vermelha aumenta o risco de doenças cardiovasculares. Segundo pesquisa americana publicada no periódico Nature Medicine, o metabolismo da substância L-carnitina por bactérias no intestino humano produz uma substância que favorece o acúmulo de gordura nas paredes arteriais, podendo desencadear um processo de aterosclerose. 
A L-carnitina, também presente em bebidas energéticas e consumida como suplemento alimentar, é um nutriente natural da carne vermelha, cuja promessa é ajudar a queimar gordura e emagrecer mais rápido. Os resultados da pesquisa, porém, mostraram que um consumo excessivo da substância pode ser prejudicial à saúde. Não por conta da L-carnitina diretamente, mas de uma substância derivada dela, chamada TMAO.Em uma série de experimentos comparativos, os cientistas demonstram que há uma relação direta entre a produção de TMAO e risco elevado de doenças cardiovasculares. Um risco que ainda não está totalmente quantificado, mas que "parece ser bastante significativo", segundo o autor principal do estudo, Stanley Hazen, do Departamento de Medicina Celular e Molecular da Cleveland Clinic, em Ohio, Estados Unidos.
"Há tempos já se sabe que há um fator de risco para doenças cardiovasculares associado ao consumo de carne vermelha; mas as gorduras saturadas e o colesterol não são suficientes para explicar isso. O que estamos mostrando nesse estudo é um novo mecanismo que ajuda a explicar por que esse risco existe", disse Hazen. "Agora temos mais um fator para prestar atenção, e mais um mecanismo no qual podemos intervir na busca de tratamentos."
As análises foram realizadas com camundongos e seres humanos, incluindo comparações entre veganos, vegetarianos e onívoros. Os resultados indicam fortemente que, quanto maior o nível de TMAO no organismo, maior o risco de desenvolver aterosclerose – doença crônica que estreita os vasos sanguíneos – e outras doenças cardiovasculares.
Isso porque o TMAO altera a maneira como o colesterol e os esteroides são metabolizados e inibe um processo chamado "transporte reverso de colesterol", que resulta num aumento do acúmulo de gordura nas paredes internas das artérias - mesmo que os níveis de colesterol circulante no sangue continuem normais, afirma Hazen. "Talvez isso explique porque algumas pessoas desenvolvem aterosclerose mesmo sem ter colesterol alto."

sábado, 9 de março de 2013

Estudo liga morte prematura ao consumo de carnes processadas


De acordo com pesquisadores, o risco aumenta 18% para cada 50 gramas consumidas desse alimento

Carne processada
Estudo mostra que 3% das mortes prematuras poderiam ser evitadas todos os anos se as pessoas consumissem menos de 20 gramas de carne processada por dia (Thinkstock)
Um estudo europeu relaciona o consumo de carnes processadas, como salsicha, salame e bacon, a um aumento do risco de morte prematura. A pesquisa foi realizada com 448.568 pessoas de 10 países europeus, que foram acompanhadas por 13 anos. Os resultados foram publicados nesta quinta-feira, no periódico BMC Medicine.

Conheça a pesquisa

ONDE FOI DIVULGADA: periódico BMC Medicine
QUEM FEZ: Sabine Rohrmann, Kim Overvad, H Bas Bueno-de-Mesquita, Marianne U Jakobsen, Rikke Egeberg, Anne Tjonneland, Laura Nailler, Marie-Christine Boutron-Ruault
INSTITUIÇÃO: Universidade de Zurique, Suíça
DADOS DE AMOSTRAGEM: 448.568 homens e mulheres de 10 países da Europa
RESULTADO: Para cada aumento de 50 gramas no consumo diário de carnes processadas, o risco de morte prematura aumenta 18%. Os riscos de morte por câncer e doenças cardiovasculares também foram aumentados: 11% para câncer e 30% para doenças cardiovasculares.
De acordo com os autores, uma dieta que envolve o consumo de uma grande quantidade de carne processada está relacionada a outras escolhas pouco saudáveis. Os dados mostram que as pessoas que consomem mais desse tipo de carne ingerem menos frutas e verduras e são mais propensas ao tabagismo. No caso dos homens, o consumo elevado de carnes processadas está relacionado à maior ingestão de bebidas alcoólicas.
Risco elevado – O risco de morte prematura aumentou de acordo com a quantidade de carne processada consumida, mesmo depois que os autores reduziram a influência de outros fatores, como estilo de vida. De acordo com o estudo, para cada aumento de 50 gramas no consumo diário de carnes processadas, o risco aumenta 18%. Os riscos de morte por câncer e doenças cardiovasculares também aumentaram: para cada 50 gramas a mais, o aumento do risco foi de 11% para câncer e 30% para doenças cardiovasculares.
Os pesquisadores estimam que 3% das mortes prematuras poderiam ser evitadas todos os anos se as pessoas consumissem menos de 20 gramas de carne processada por dia.
O estudo, realizado com dados da Investigação Europeia de Perspectivas de Câncer e Nutrição (European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition), também analisou as consequências do consumo de carne vermelha fresca e de aves, e não encontrou relação significativa.

 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Excesso de carne processada dá mais chances de morte precoce


Pesquisa feita com 450 mil voluntários europeus conclui que linguiças e bacon demais aumentam risco de câncer e doenças do coração

  • Consumo menor que 20 gramas por dia evitaria 3% das mortes investigadas pelo levantamento





Pesquisa associa o consumo de carne processada à mortalidade por câncer e doenças cardiovasculares
Foto: Agência O Globo
Pesquisa associa o consumo de carne processada à mortalidade por câncer e doenças cardiovasculares Agência O Globo
RIO- Uma pesquisa abrangente, que analisou a dieta de cerca 450 mil europeus, conclui que homens e mulheres com um alto consumo de carne processada - linguiça, bacon, salsicha, hambúrguer e apresuntados - têm mais chances de morrer precocemente, em especial devido a doenças cardiovasculares, mas também com câncer. Nesta população, a redução do consumo de carne processada para menos de 20 gramas por dia iria impedir mais de 3% de todas as mortes.
Como o consumo de carne processada é um fator de risco evitável, as autoridades sanitárias deveriam incluir informações específicas sobre a redução do consumo de carne processada, sugerem os autores do estudo.
O levantamento, da Perspectiva Europeia de Investigação sobre Câncer e Nutrição (Epic, na sigla em inglês), foi feito entre voluntários sem histórico de câncer, derrame, ou enfarte. Tinham entre 35 e 69 anos e forneceram dados sobre o que comiam, se fumavam, as atividades físicas e o índice de massa corporal.
É sabido por todos que a carne vermelha é um alimento rico em proteínas e ferro. Embora o ferro seja essencial para a prevenção de anemia, o elevado consumo está relacionado com a formação endógena de compostos de nitrogênio no trato gastrointestinal e, assim, pode se tornar um fator de risco para alguns tipos de câncer, como o de colo, de acordo com a pesquisa. O levantamento, no entanto, não concluiu que o consumo de carne vermelha fresca, sem ser processada, fez diferença nas causas de mortalidade investigadas. O mesmo ocorreu com a carne de aves.
De cada 17 pessoas acompanhadas, m média por 13 anos, uma morreu. Mas aquelas que comiam mais de 160 gramas de carne processada por dia - o equivalente a duas salsicha e uma fatia de bacon - foram 44% mais propensas a morrer durante o período da pesquisa que aquelas que comiam cerca de 20 gramas do alimento.
Ao todo, cerca de 10 mil pessoas pesquisadas morreram de câncer e outras 5.500 de problemas cardíacos. Homens e mulheres que mais consumiam carne vermelha ou carne processada tendiam a ingerir menos frutas e outros vegetais. Foram também os mais propensos a terem o hábito de fumar e com menos tendência a terem formação universitária. Outro dado importante é o fato de os homens com maior consumo de carne vermelha consomem mais álcool que aqueles que não exageram com a carne. A tendência, no entanto, não foi confirmada entre as mulheres.