domingo, 18 de agosto de 2013

Infestação na cozinha

Um relatório da ONU diz que os insetos podem ser uma importante fonte de proteínas no futuro. Decidi prová-los

NATÁLIA SPINACÉ
18/08/2013 12h51 - Atualizado em 18/08/2013 13h27
 
 
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ESTÁ SERVIDO? Um dos grilos desidratados que usei como ingrediente em meu jantar. A textura é crocante,  e o sabor lembra uma mistura de rúcula com pistache (Foto: Dulla/ÉPOCA. Produção: Felipe Monteiro e Jairo Billafranca para Studio Bee Produções; pratos e talher: Doural; alimentos (grilo, tenébrios): Exotic Pets)
>> A comida do futuro

A ideia de levá-los para as minhas panelas surgiu de um relatório recente apresentado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês). Segundo o documento, até 2050 a população mundial terá 2 bilhões a mais de habitantes. O espaço para a criação de gado e outras fontes comuns de proteína não será suficiente para alimentar tanta gente. A saída, diz o relatório, será encontrar fontes alternativas de proteí­nas – como os insetos. Eles são mais nutritivos que a maioria das carnes que consumimos. Cem gramas de besouros contêm em média 5 gramas a mais de proteínas do que a mesma quantidade de carne de boi. A maioria dos insetos também é rica em ferro e outras vitaminas.

Se os insetos são a comida do futuro, é bom nos acostumarmos a seu gosto e textura. Mas nem pense em pegar o primeiro que passar por seu jardim. Há 1,5 milhão de espécies de insetos no mundo. Destas, apenas (gulp!) 1.662 são comestíveis. O ideal é conseguir a matéria-prima em empresas especializadas na criação de insetos. No Brasil, existem algumas. Uma delas é a mineira Nutrinsecta, que cria grilos, tenébrios, moscas e baratas para produzir ração animal. Foi lá que consegui os insetos que serviram de ingrediente para meu jantar. A empresa ainda não vende os insetos para a alimentação de humanos. Mas abre exceções para alguns chefs e curiosos que queiram experimentar. Os animais, criados em cativeiro, se alimentam de uma ração feita com soja, milho e farelo de trigo. Para poder vendê-los em grande escala, falta uma certificação do Ministério da Agricultura. Nos poucos restaurantes que servem insetos, cabe à Vigilância Sanitária municipal fiscalizar a procedência e a higiene.
>> A carne feita em laboratório

Meus grilos e tenébrios chegaram pelo correio. Vieram desidratados, em potinhos lacrados. Alguns sentiram curiosidade ao vê-los; outros não conseguiram conter o nojo. Uma colega de trabalho chegou a se assustar com os grilos e derrubou alguns no chão. Outra tentou experimentar um tenébrio. Cuspiu antes de conseguir mastigá-lo. O nojo é uma das maiores barreiras para a inclusão de insetos na dieta humana. Alguns pesquisadores já estudam maneiras de superar a aversão natural a insetos e tornar o consumo mais fácil. A ideia é transformá-los numa espécie de farinha ou em barras de cereal. s Apesar de não ser comum no Brasil, o hábito de comer insetos e seus parentes próximos existe em várias partes do mundo. Na Venezuela, é comum comer tarântulas assadas. Os aborígines australianos comem larvas de mariposa. Em países como Tailândia e China, é possível encontrar uma infinidade de espécies nos mercados de rua.
Uma técnica usada para driblar a aversão alimentar é criar um clima agradável para degustar o prato que causa nojo. Fazer uma mesa bonita e colocar sua música preferida ao fundo pode ajudar. “É uma maneira de associar a comida a um momento agradável”, diz a psicóloga Maria Augusta Mansur de Souza, especialista em reeducação alimentar. Não sabia dessas técnicas quando os insetos chegaram. Antes de testá-los nas receitas, resolvi prová-los puros, sem música nem mesa bonita. Abri o potinho e cheirei. O aroma não era estranho. Lembrava ração de cachorro. As patas, as antenas e os olhos dos grilos me assustaram um pouco. Resolvi começar pelo tenébrio, que tem o corpo mais uniforme. Como estava desidratado, a textura era crocante. O sabor não era parecido com nada que já comi. Passa muito longe de um bife ou de qualquer outra carne. Eu o definiria como uma mistura de amendoim (crocante) com rúcula (gosto de mato). O grilo tem um sabor semelhante, mas mais forte. Lembra um pouco o pistache. Eles não chegam a ser gostosos, mas também não são horríveis. A parte mais difícil de comer um inseto é ter coragem de colocá-lo na boca e mastigar. Depois disso, não fica tão assustador.
 
Viscosos, mas nutritivos (Foto: ÉPOCA)
Uma maneira de disfarçar o sabor e a aparência dos insetos é usá-los como ingredientes em outros pratos. “Quando misturados com outros alimentos, eles acabam aderindo ao sabor dos outros ingredientes e perdem seu gosto natural”, diz o chef Rossano Linassi, especialista em gastronomia com insetos. Ele é o criador das receitas que tentei reproduzir. Em seu cardápio havia canapés de barata, pizza de grilo, pão de queijo com farinha de barata, macarrão com tenébrios e grilos ao chocolate. Excluí as receitas com baratas logo de cara. Por mais que a barata criada em cativeiro seja limpinha e tenha um aspecto diferente daquela que vive no esgoto, a associação é inevitável. Escolhi o macarrão com tenébrios e, de sobremesa, os grilos com chocolate.

Para fazer as receitas, é preciso reidratar os insetos com água fervente. Eles não chegam a ficar moles ou gosmentos. Ficam apenas mais parecidos com insetos vivos. Isso me deu um pouco de aflição. Tirando a necessidade de hidratá-los, o modo de cozinhar com insetos não foge ao que estamos acostumados com frango ou carne. Surpreendentemente, achei os pratos visualmente apetitosos depois de prontos. Senti vontade de experimentar. Por estar hidratados, os insetos tinham uma textura diferente que na primeira vez. Estavam mais moles, e o sabor de “amendoim com rúcula” ficou mais suave, disfarçado pelos outros ingredientes.

Não comi o prato todo. Duas garfadas do macarrão e dois grilos cobertos por chocolate foram mais que suficientes para saciar a curiosidade. Mesmo assim, não achei os insetos tão ruins. Hoje, enquanto ainda posso escolher, jamais trocaria um bife de carne de vaca, porco ou frango por um inseto. Mas, se no futuro eles forem a única opção acessível de proteínas, acho que não passarei fome. É só uma questão de acostumar o paladar, escolher uma boa trilha sonora e preparar uma mesa bonita. 
 
Macarrão com tenébrios (Foto: Ricardo Correa/ÉPOCA)
Ingredientes:
50 g de tenébrios gigantes
1 dente de alho picado pequeno
40 g de cebola picada pequena
40g de brócolis japonês em floretes pequenos
50g de cenoura cortada em tiras fininhas
40g de cogumelos shiitake em tirinhas
40g de tomate maduro cortado em cubos pequenos
30ml de shoyu (molho de soja)
100g de macarrão udon ou espaguete grano duro
30ml de azeite de oliva
4 folhas de manjericão para decorar
Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:
1. Cozinhe o macarrão em 1 litro de água com um pouco de sal
2. Corte os vegetais como indicado
3. Escorra o macarrão
4. Esquente uma frigideira, acrescente o azeite e frite o alho e a cebola
5. Frite os insetos, a cenoura, o tomate, o brócolis e o shiitake. Acrescente o shoyu
6. Acrescente o macarrão já escorrido. Ponha sal e pimenta e sirva decorado com as folhas de manjericão fresco  

 
Grilos ao chocolate (Foto: Ricardo Correa/ÉPOCA)
Ingredientes:
50g de grilos inteiros
100g de chocolate meio amargo
1 folha de papel-manteiga
 
Modo de preparo:
1. Limpe os grilos, hidrate-os se preciso. Leve ao forno para tostar e deixá-los bem crocantes. Deixe esfriar
2. Derreta o chocolate em banho-maria ou no micro-ondas
3. Mergulhe os grilos no chocolate e retire com um garfo para escorrer o excesso
4. Coloque sobre o papel-manteiga e leve ao freezer para endurecer. Retire do papel e sirva 

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